segunda-feira, 15 de novembro de 2010

NENA *

   E O VENTO LEVOU...                                                                                                                                                                                           
                                
NENA
 A Garota dos Anos 60
                      Oh! Girl...Girl ! 
                             

                                    
                                                           
Este texto sobre a Nena , vai “ ao sabor dos anos 60”,    com as cenas todas iluminadas pela memória efetivamente presente, como  um fluxo de energia com todo os preceitos daquela época, em que eu era um sonhador em estado bruto, como um oceano primitivo,e todo ativado pela pureza e inocência que me rodeava  em todas as esquinas daquela cidadezinha que ainda não tinha o vírus da discriminação, era só beleza e maravilha!

Os anos sessenta começaram com aquela “história de contar “jeeps”. A lenda era assim: Você contava 100 jeeps e depois da contagem , que era difícil , pois custava muito você avistar aqueles “tais” de 100 jeeps ; a primeira  menina que você encontra-se no caminho e apertasse  a mão dela ..., feito... ela sería tua namorada ! (-) Ah... que linda namorada você poderia ter...(-)!

A Nena era uma dessas meninas que todo mundo queria apertar a mão,
(I Wanna Hold your Hand ) namorar  logo... logo..., tal era  a mágica figura da linda Nena.

Mas as coisas não eram muito fáceis assim , pois ninguém conseguiu apertar a mão da “menina dos sonhos”, todos os guris apertaram a mão de meninas erradas, tenho essa impressão,  hoje , depois de anos e anos de receber notícias de amigos ; pois a pergunta sempre foi :- Com quem você casou ?

As respostas sempre foram, muitas vezes vazias ,...casei com uma menina  que nem morava na cidade, ...casei com a fulana que nem era da faixa ... casei com a menina da “Vila Osório” , pô , cara, aquela que ninguém pensava , mas como ?!?!

As meninas que estavam nos sonhos daqueles anos ”60” , casaram-se , na verdade com rapazes da “hora” , coisas assim, sem” lenda nenhuma”  . E  elas eram as próprias artistas da tela do cinema, então não poderíamos  admitir  que aquelas “lindas meninas”,  “deixe esta boneca faça me o favor” (-) ,não tivessem outro destino do que nós os “guris da faixa..., ledo engano..., existia vida além de nossas vidas suburbanas , mas a gente não pensava assim.

E foi neste panorama todo, que Nena apareceu na cidade, ela pertencia a outros roteiros, coisas assim de mercado de artes, uma loirinha natural, com olhos de Brigitte.

A primeira vez que vi a Nena , ela estava desfilando em carro aberto pela avenida , tinha sido escolhida a “Rainha da Fenac”, ou coisa parecida , mas Rainha!

A Nena sempre foi percebível  aos meus olhos, como uma coisa mais ou menos assim:  Nascida em Paris entre aquelas colunas que o “sol doira” , lendo Voltaire, Victor Hugo, passeando pelo Louvre, onde numa daquelas tardes ,esbarra em Roger Vadin e a história em vez de ser de Brigitte Bardot sería da Nena . Ou então, entre estragos históricos, e restaurações da Itália, pela Capella Sixtina, dentro do espírito do tempo, todos os dias  seus cabelos da cor do ouro ao som da música de Peppino de Capri, e Sergio Endrigo , ou mais então..., em Londres, pela Abadia de Westminster , participando de homenagens a Thomas Morus ao som dos Beatles, batendo naquelas paredes de tijolos vermelhos á vista..., mas por uma dessas coisas da vida, a Nena morava ali....,naquela cidade pequena , cheia de sonhos, daqueles guris sem destino certo.

Os anos “sessenta” carregava todo um nascer de uma personalidade própria, e na nossa cidade...,
uma “paz bovina”  monótona , mas apesar daquelas
“tartarugas” todas, o “fog” da nossa juventude era  londrino , o verão era da Califórnia, e a primavera de Barcelona. Nossos pensamentos andavam a “mil”, alguma coisa já estava acontecendo na cabeça de todos nós . A guitarra base , a guitarra solo, o baixo e a batera já se fazia sentir naquela cidadezinha do interior do Brasil, e a Nena morava alí do nosso lado.

E aquela história dos “100 jeeps” , ficou na verdade em nossas linhas das mãos  , ninguém apertou a mão da Nena , a não ser um garoto que não tinha raízes de nosso solo urbano , chegou ...,e levou a Nena.

Mas isso aconteceu muito tempo depois, nossos sonhos continuaram pelas serenatas, no meio das músicas pelos salões do Aliança , do Comércio  e pelos  “ ÓS”...era assim... à gente passava pelas gurias a dava um “Ó”... elas olhavam e faziam aquelas caras de “eu sou mais eu” e muitas vezes deixavam o ar somente com o nosso próprio “Ó”;
tragédia total, desilusão..., por que não eu ?

Mas, com a Nena, isto não acontecia , ela olhava sempre nos olhos e respondia “Óooooooo”, aquele “super “Ó”,esta era a diferença , por isso ela foi uma das principais  musas dos anos “60”, cheia de classe e paixão, sem medo de ser feliz!

Tenho uma dívida com a Família Frainer, todas as influências que recebi, e que me ajudaram a descobrir os caminhos da vida, foi através das primeiras cenas de cinema ,que assisti nos velhos cines de propriedade desta família . Até hoje não sei se é cena de cinema, ou se é realidade, misturo tudo. Me sinto personagem, coloco na fita tudo que me rodeia ; um exercício constante que me levou a arte . Todos estes acontecimentos que passaram pela minha vida, me garantiram que a vida é uma só, e que a estrada( escrito na  placa de caminhão), é uma viagem sem retorno.  A Nena fez parte deste meu mundo , assim como outras  pessoas raras  que me ajudaram a montar este mosaico no tempo,  elas me mostraram a necessidade de romper barreiras , apesar de todas aquelas cautelas do passado .

Uma das memoráveis serenatas que fizemos, foi na janela da Nena. Não sabíamos onde era a janela do quarto da Nena, entramos bem devagarinho (Índio, Zé Carlos, Fernandão, Mike,Tassinari, Getulio, Rigobelo,  uma “pá” de gente  e mandamos ver “O Vento da Solidão, enxugou teus olhos tristes” , etc..., o quarto da Nena era uma incógnita , mas a gente escolheu um espaço neutro e cantamos com altos vocais , depois mandamos “Rang on sloop , Califórnia Dreaming “...e a Nena de repente apareceu  por entre cortinas ,( tipo assim “Esta Noite é Minha” filme genial da época , com Martine Carol, Gina Lollobrigida) ... A gente viu aquela silhueta, e ali, eu tive a sensação que a Nena  veio a terra com a missão de dar a  luz ao sol.

A Nena agradeceu britânicamente, tipo assim família Kennedy e a gente saiu do páteo e voltou a vida normal .

A vida corria plena , a cidade se misturava com notícias sobre Beatles, reuniões dançantes , legalidade, bloco do Aliança, bloco do Comércio,
militares , discursos  comunistas, Grupo dos 11,
UNE ,.. e a gente cantando” I Wanna Hold Your Hand”.

Tinha dias que a cidade ficava invisível em meio a tantas sonhos, foi num desses  dias,  que começou na cidade o curso noturno ; a grande onda , coisa de moda , haaaá  o curso noturno !

 Todas as garotas e garotos foram para o curso noturno, aquilo virou “O Maior Espetáculo da Terra”; Colégio Loureiro da Silva, antigo Bernardo Vieira de Mello, o “Gran Mond”,
as mais belas da cidade estavam ali , o colégio era na faixa, o “point” de nossa juventude.

Imagine agora,num instante..., a sineta bateu para
começar as aulas, depois deste toque, ainda tinha 5 minutos para fechar o portão e depois disso ninguém mais entrava . E justamente neste resumo
do “tudo pode acontecer”, quem vem lá? Com o arquivo cheio de papéis  para estudar no curso noturno ...., incrível !?!?!  A Nena!!!!!!!!!!!!  Contrariando a tudo e a todos .

  Estudar a noite naqueles tempos era um ato de coragem que as grandes famílias da cidade não concordavam:
”Báh ! Aquele noturno é cheio de cabeludos , não dá”!

Tinha cabelos de tudo que era jeito...Beatles,Rolling Stones, Elvis ,
Jimmi Hendrix, cabelos Jovem Guarda..., tinha os mais avançados que já estavam lendo Morris West, Enry Miller, Ernest Heminngway Baudelaire, Neruda , a Carne , um livro proibido que passava de mão em mão?!?! e as meninas , lógico “O Pequeno Príncipe”,,,demais !!!!

A Nena chegou  bem devagarinho...,mas como?... A Nena não vai mais estudar no Colégio das Irmãs, pensei!?!?! Alguma coisa está a mudar, ou não?

Os dias passando..., e comecei a ficar mais próximo da Nena. Senti alguma coisa nos olhos da Nena, ela estava mais concentrada, aquele sol que sempre acompanhou a Nena, estava  mais perto da tarde.

Eu achei genial , sempre gostei desses lances de cinema “E Deus Criou a Mulher” , lançamento da Brigitte no mundo , “Fogueiras da Paixão” com a Joan Crawford,” A Mulher Inesquecível” com a Joan Fontaine; a Nena estava mais pra Cinema do que nunca.

Numa daquelas noites de fim de março, a Nena me mostrou algumas poesias de sua autoria escritas nas páginas do arquivo, me lembro que eu li , estava na hora do recreio, e fiquei com este novo paradigma da Nena; a Nena já estava em outra fase, esperando, talvez, alguma coisa diferente daqueles dias previsíveis..., ela me falou de uma garotinha que tinha problemas , e que tudo aquilo naquele momento , levara ela para uma nova realidade, e que só o Colégio Público  poderia ajudar ela naquele momento. O Curso Ginasial e Científico, ajudou a todos nós, a enfrentar os dentes cintilantes de toda
aquela  realidade, que pra nós era sonho, mas que começou a  mudar o mundo a partir da década de “60”.

Um novo “insight”, uma misteriosa realidade que se
aproximava da Nena ?!?! Sei lá!

Não lembro  dos escritos da Nena, mas eram poesias que falavam daqueles momentos que o vento levou.

Tudo era fácil de se observar , cidade pequena , meninas ao alcance da vista, amigos , bem como a família a quem pertenciam. Eu me sentia em casa , mesmo quando estava no La Salle...,longe...pacas..., ...,bem ali ...onde terminava aqueles horizontes do nosso lugar.

Nós éramos filhos da mocidade, filhos dos sonhos ..,. as garotas eram um campo florescente para os nossos dias de adolescência, os Beatles faziam a trilha sonora , e a Nena a magia que fazia a gente acreditar que mesmo estando numa cidade operária,  nossas futuras referências estavam sendo plantadas e não estavam fazendo mal a ninguém.

Os belos dias eram muitos, e num desses dias em que a gente estava jogando ping- pong na casa do Renato e do Flávio, ( passei  alguns momentos, de meus dias adolescentes nesta casa jogando botão de mesa, assistindo a TV. Piratini , falando bobagens , e saindo  para ir ao Cine Palácio ) aparecem lá,a Nena e a Marne!

Aquilo foi um susto , a Nena sempre liderando os “papos”, por sinal uma característica que veio de berço , ela foi líder em tudo , com as amigas , amigos e onde estudou. Eu pensei assim: A Nena veio para ver os guris, (Renato e Flávio), eles eram gente fina, bem situados , mas muito “caretas” , não era coisa pra Nena, eu sempre coloquei ela num lugar utópico  e, aquele lugar alí, não tinha nada para oferecer a Nena, coisas passageiras, barulho da bolinha de ping -pong , som da Tv. Piratini, alguns olhares medrosos para os olhos  da Nena e para a "maluquinha" Marne .

 Nem um café da tarde ou chá  para as meninas, mas a casa era dos guris e não tinha charme nenhum, somente aquele tempo passando rápido levando nossa  adolescência para um futuro adulto e incerto ao "som dos Beatles na vitrola".

Ela foi algumas vezes lá, naquelas tardes de sábado, na garagem do tempo, nos fundos da casa marron. ...
Mas como sempre,  a Nena abdicava, renunciava , ela procurava algo, uma mudança, talves,.., um grande amor que pudesse arrebatar o seu coração. E assim, foi embora, deixando somente
a alegria daqueles últimos dias na casa dos guris.

Todos levavam no coração uma garota,  uma paixão, nem que fosse por algumas semanas ou por um ano . Tudo era oceano naquela cidade sem rio.

Eu estava encerrado em mim; em nenhum grupo .
Pertencia aquele fumegante lugar, e fazia parte “daquelas cabeças” que amava de paixão todas as garotas que pela minha lente de cinema, poderiam substituir em cenas empolgantes , qualquer grande artista de hollywood .

A Nena, representou muito para todos que viveram aqueles tempos “rebelde sem causa”  dos anos “60”.
Aquela cidade foi espelho para todos nós, descobrimos  princípios sobre a vida, e o charme de ser belo pela que você é , pelo que você faz.

Uma cidade que tinha o “Quarto do Lico”, a bela Nena, a doce Maria Luiza e a graça da pequena Beth , só poderia ter a luz que iluminou nossa adolescência .

Tenho muito mais coisas para falar da Nena, que
só um grande  romance comportaria; a última cena
que me vem a mente, é quando a  Nena ..., casou!

A festa foi no espetacular Clube Aliança, eu estava no “Bar do Zé”,entre a  Garibaldi e a Presidente Vargas bem na frente do Clube, quando vi a Nena entrar com aquele chapéu “Coco Chanel”, ela estava sorrindo de alegria, e o sol da Nena estava a pleno meio-dia..., talvez ali , naquele momento, pareceu-me que a Nena tinha encontrado as flôres
que ela tanto procurava !

Fim !


                                O sol  nas cores da Nena !
                                                                          ( Monet)



3 comentários:

Luís Cláudio Delvan disse...

E ai irmão!
Reparou que o vento apareceu de novo?
E as melhores coisas de nossas vidas são aquelas que não aconteceram?
Os amores mais amados, embora a gente negue até morrer, são aqueles que não se realizaram? Foram embora no passar vazio do tempo.
A propósito adorei a "PAZ BOVINA".
Bois na verdade não estão sempre em paz, veja as touradas. Bem ai não são mais meros bois, são touros; qual a diferença?
Mas, mesmo assim, a paz bovina dá a perfeita sensação do nada.
A mulher perfeita é aquela que não tivemos tempo de reconhecer nelas os defeitos do mundo, não que ela não os tivesse, mas que o encanto foi tanto que nossos olhos não os tivessem percebido.
"Os momentos perfeitos, na realidade não aconteceram. Foram tirados de pequenos instantes que durante uma vida foram colecionados e agrupados formando um filme. Afinal não é assim que eles são feitos,quadro a quadro juntamos a ilusão.
Um abraço.
Delvan

Emilio Pacheco disse...

A "paz bovina" seria uma citação à letra de "Fadas Douradas", do Inconsciente Coletivo?

Hallai disse...

Allen Ginsberg (Poeta da Alma Beat)